Conto de fadas de fetos

Ele está com uma foto na mão.
Que foto é essa?, ela pergunta.
É a capa de um disco. Estende a foto para ela:
Bah, é um feto?!, anuncia, depois observa, de olhos meio fechados, focalizando.
Pra mim parece só uma foto psicodélica, ponderou ele.
Parece um feto, responde calma mas perplexa, tira um grampo do cabelo. Mas vai ver é só uma imagem psicodélica mesmo.
Ele pega a foto de volta.
Eu acho que não é um feto, diz, concentrado, porque quando você abre o álbum tem umas gotas parece…, inclina a cabeça e quase encosta a orelha no ombro, na verdade, acho que são umas pedras na água, sei lá, mas de qualquer forma, se você abrir o álbum…., aproxima a foto aos olhos, ajeita a cabeça, não, não vejo um resto de feto, vejo… algo psicodélico.
Sim, pois é, tenho que ver o álbum.
(PAUSA)
Gosto da foto, ele torna a falar, não sei onde é que você tá vendo um feto, estende a foto. Ela apanha-a e se senta ao lado dele:
Esse negócio preto parece um olho, indica com o dedo.
Olha pra ele, que nada diz, por fim completa, olho de feto.
Ele procura, enquanto ela:
Parece um passarinho-feto.
Ele:
Não vejo… também, nem sei como é um feto…
Bah! sério?!, ela chega a se afastar, tu nunca viu um em laboratório?!
Sim, dentro do formal… formol, quero dizer.
Ele se lembrou que no colégio havia um.
Sim, então… são fetos, tu já viu, nunca viu um passarinho sem penas, morto?
Mas não vejo esse feto…
Olha pra foto, pensativo; depois, como se tivesse ouvido o eco da pergunta, responde:
Não, isso não.. pássaro sem penas?
Desses que caem do ninho, responde ela, impaciente; ele move a cabeça indicando não,
Ela: Bah… putz… Já vi uns quantos.
Só passarinho morto… serve? Daí já vi.
Não …eles não se parecem com esse aí.
Os dois.
Vou olhar mais pro chão, então, tornou ele.
É, hoje não é mais tão comum eu encontrar
Ele dá um sorriso e ri, ela:
Mas quando era pequena era tri comum…tava sempre vendo
Ó, olha só, ele empertiga-se no sofá e diz:
Você podia fazer uma pesquisa, cujo título seria: ‘Por que não há mais feto de pássaros nas calçadas, nas ruas, nas gramas por onde ando?’
Começa a rir.
A resposta pra pesquisa seria…, ela dá uma pausa ridícula, larga a foto sobre a mesinha, ajeita-se no sofá: porque tu não é mais criança.
Ela levanta os olhos e meneia a cabeça, ele:
Só por que você não é mais criança desaparecem os fetos do chão?… que frase…, e volta rir.
Não, é que agora eu já nem olho mais… antes vivia com a cara no chão.
Ela fica em silêncio e, sem mais, desata a rir também, ele se abaixa, amarra os tênis.
Há uma questão de altura, então… quanto mais perto do chão, mais perto de fetos mortos, é a conclusão.
Cuidemos pra não tropeçar neles, ela diz.
Os dois.
Tão bom quando as coisas se explicam, ele observa, rindo e se ajeitando no sofá, ela começa a rir mais.
Param.

[felipe.n.]

Add comment Abril 3, 2008

Ready-made 1

A salinha onde foi introduzido o moço era forrada com um carpete cinza malcheiroso: havia gerânios e venezianas brancas na janela; a luz de um abajur jogava sobre tudo isso uma luz clara. Os móveis, de madeira, eram todos velhos. Um piano com um busto de Wagner, uma mesa redonda diante da janela, sobre a qual, no parapeito, dormia um gato, uma cadeira encostada à parede, duas ou três pinturas sem valor, representando paisagens com grandes pássaros – eis a que se reduzia a mobília. 

[felipe.n.]

1 comment Março 11, 2008

Mística da coisa.

A figa é um símbolo fálico. A viga também.

figa.jpg

Add comment Março 5, 2008

Poesia de banheiro.

Poesia Reta.

 Eu penso.

Tu pensas.

Ele pensa.

Nós pensamos.

Vós pensais.

Eles pensam.

(ninguém faz)

**

Poesia Cíclica

Eu cago.

Tu limpas.

Ele caga.

Nós limpamos.

Vós cagais.

Eles limpam.

Add comment Março 5, 2008

Hotel Santa Clara – Àmy

amy_winehouse.jpg

“You’ve got a funny hair
but i don’t really care
you look like a whore
(cheap cheap whore)

Your voice makes me feel
like taking horse’s pills
Amy, it’s not a joke
i love you more than you love coke
(snif snif coke).”

Add comment Março 4, 2008

Campanha blogquemata!

Sim, sim. Façamos faixas, cartazes, stencil(s), camisetas, botons, tatuagens, shows de rock, vamos descobrir quem é o anônimo, o que ele pretende, qual sua relação com Wu Ming e Homero, será ele um escritor de textos apócrifos?

Tudo – e muito mais – EM BREVE.

Farei uma entrevista com essa lenda urbana do blogquemata. Vamos saber mais da vida e da obra desse pequeno jovem? Vamos!!! 

[felipe.n.]

1 comment Fevereiro 28, 2008

A short story. Ruim, sinceramente (ou porque temos o direito de sermos rejeitados)

Sim, aqueles passageiros do ônibus T7 estão desconfortáveis depois de terem ouvido em seus head-fones alguma – como definir com precisão? Sim, há dois que estão rindo, pois a rádio que escutam estava contando uma piada. Mas não é brincadeira. Aqueles que compreenderam isso, estão ou guardando seus fones ou fingindo que nada aconteceu naqueles poucos segundos, mas neste grupo só estão aqueles dois.

Na terapia: – Eu, doutor, sou o cara que anda com roupa de ursinho Puff e lhe perturba no shopping, que lhe aponta pros outros, você se sente mal com isso e não me importo, rio dentro daquela cabeça gigante, e as minhas risadas são abafadas pelas longas camadas de espuma.
Um círculo em torno daquele boneco de gente no chão se fez, pediram pra tirar a cabeça pro moço respirar, dois seguranças puxaram, mas não havia nada dentro.

  Levantou-se depois de um minuto. Em pé, viu que seu adversário estava já alguns metros de distância. Não adiantava correr atrás, nem dizer porcarias. Pôs as mãos nos bolsos e percebeu que estava sujo, deu batidas com as mãos na bermuda, na camisa, nas canelas e tirou parte da areia que cobria o corpo. Olhou pra trás, andou até a calçada e gritou, pedindo para que a mãe abrisse a porta.
 Nada. Gritou de novo e nada. Tocou a campainha. Por sorte, o pai vinha chegando e abriu o portão e depois a porta. Só deu tempo da valise cair e do menino gritar.

 Algo mais que a fronha fedida atormentava o sono de Dario, abalando-o de tal maneira que podia vislumbrar um quadro de São Jorge no mofo do teto. Levantou a cabeça e reconheceu, como no poema, que os objetos, de costas uns para os outros, continuavam não se amando. Bela imagem, pensou. As rosas que havia recebido de presente, por falta dágua, morriam enquanto ele estava fora de casa, naquele hotel.
 Sendo poeta, ele escreveria “DE REPENTE UM”. Mas ele não viu nada disso.   

Na banca de jornal havia dúzias de postais que prenderam seus olhos e a fizeram parar de andar em sua cidade. Recuperou uma vista que há muito não via e muito lhe era remota e conhecida.
Estendeu a mão, pegou a foto de um pôr-do-sol, guardou-o e prontamente rasgou dentro da bolsa, de onde tirou 5 reais, que sumiram tão logo o vendedor fechou a caixa-registradora.

“Antes de entrar no elevador, certifique-se de que o mesmo encontra-se neste andar” , leu, pensando que era errado usar “o mesmo”. Chega o elevador. Espera. Entra, vendo-se pelo espelho. Carpete vermelho no chão. Aperta o número 4 e, no mesmo instante, pensa na quantidade de pessoas que haviam saído do elevador, esperou-o esvaziar por quase um minuto. Sente-se subir.
Fica de costas ao espelho, o tempo é grande até o quarto andar; a porta abre, rápida, normal. Escuro. Muito. Olha para trás. Vira o corpo inteiro, o espelho reflete o já conhecido corredor, com seu lixo à frente, o vaso de plantas, a parede bege, o extintor e até mesmo (segue o espelho, como quem, meticulosamente, examina um quadro) o chão, limpo nas terças, encerado. Vira-se e o grande escuro. O nervosismo está seguro no espelho, mas cede lugar à razão. Finalmente, põe ajoelha-se no carpete vermelho e vai arrastando a mão até a ponta da porta. Acaba o elevador aqui, pensa, sente a certeza de não haver nada depois dele. Levanta. Toca, então, com a palma da mão o espelho, que de repente se parte.
Pensa. Um espelho derruído e mais uma parede igual às duas que já havia. No chão, os pequenos espelhos passam a refletir parte do teto, com seu ventilador e suas duas lâmpadas. Afasta os fragmentos para fora; somem pequenos pontos luminosos no infinito negro (admite, rapidamente, esta frase patética). Após alguns minutos, tem o canto do elevador para sentar e escorar-se. Espera.

Levanta-se. Caminha até a frente da porta. Frente o andar. O andar? Andar? É só um andar…

[felipe.n.]

1 comment Fevereiro 28, 2008

Nos Banheiros (ou cdf que refaz os temas)

[é, galerinha, o tema da semana já foi, mas, como todos gostaram das histórias de banheiros e pipis colocadas por mim e pelo meu... pois é, pessoal, como tratar o anônimo que nos ajuda a sorrir e dá esperança ao nosso dia-a-dia caótico? Fãs, peçam para que ele se revele e assine os textos! – bom, aí vão mais duas variações sobre o tema.]

ESTÓRIA A

Acho bem engraçado o barulho que faz quando você faz xixi.
Tomei mais um gole d’água, larguei o copo na pia mesmo, e lambi o canto dos lábios.
Como assim?
E ela me olha de esguelha cheia de exclamação.
Não.
E rio reticente.
Não entendi.
Redargüiu ela, concentrada.
É que mulher sentada… mijando… faz outro barulho que o homem, e o seu é ainda mais o seu, entende?
Ela segue mijando.
Assim ó: se eu estivesse num banheiro feminino e tivesse um monte de cabines com mulheres fazendo xixi de porta fechada, eu saberia em qual cabine você estaria apenas pelo seu barulhinho, xxxxxxi.
Rio, encontro meu rosto sorridente no espelho, viro-me para vê-la.
Ela sorri.
E como é o meu barulho?
Como vou te explicar?
Passo a mordiscar a ponta do bigode.
Não sei, dá um jeito, você que começou com esse papo.
Fala isso enquanto tira um pedaço de papel higiênico, dobra-o em quatro partes.
Anda, fala!
Coço a sobrancelha direita, depois passo o indicador sobre uma espinha na testa.
Sei lá, ele bate na água do vaso e faz um som assim ó.
E me encolho todo, dando a significar que o som sai exprimido, até o meu rosto se contrai na tentativa de explicar.
Você é lindo.
Ela diz, me olhando.
Eu finjo que não a escuto e sigo a explanação, como se estivesse absorto num conflito de raciocínio, crio qualquer coisa, rapidamente.
Sai fininho e apertado, entende?, sai com força, acho: quanto menor a área maior a pressão, e é na água do vaso, então faz um barulhinho, sabe?
Me embolo na explicação, de propósito.
Ela já tá de pé, levantando as calças e sorrindo.
Por exemplo agora!
Me exalto com um apontar de braços em sua direção.
Você faz algo bem esquisito pra mim.
Ela pára, põe as mãos na cintura, espera. Suspiro e falo rápido:
Você se levanta do vaso primeiro e depois se abaixa pra pegar as calças arriadas, eu não, quer dizer, começa que eu só sento no vaso pra cagar.
Ela permanece inerte, cara fechada. Me calo um segundo. Sigo:
Mas depois de me limpar, me abaixo, mas ainda sentado, sabe?, eu sigo sentado, e à medida que vou me levantando vou vestindo a calça, entende?
E sorrio muito dentro do espelho.
Sim, você quer poupar tempo.
Ela sorri muito, embora eu não a olhe.

ESTÓRIA B

Pára, anda… pára!
Ela suplica.
Parar o quê?
Ele diz, respirando fundo, aliviado.
Pára de mijar, aproveita que recém começou.
Se aproxima dele, exasperada e completa:
Além disso você disse que tava quase morrendo de… anda!… segura o mijo.
Ah, não, porra…
Ele ri.
Você viu o quão apertado eu tava, o que você quer?
Toma aqui.
Você quer que eu pare de mijar só pra segurar o seu copo? Com a mão suja?
Olha-a com ar de deboche.
Vê se você se equilibra… mija dentro do vaso pelo menos, depois quem tem que limpar sou eu… anda, segura.
Tá!, pronto, segurei.
Ele pega então o copo com água.
Agora bebe água e mija ao mesmo tempo, entendeu?
Adverte ela. Ele começa a rir e larga um pouco de mijo fora do vaso.
Anda, começa!
Ele põe o copo na boca, volta a mijar e a beber a água. Termina quase ao mesmo tempo. Dá a descarga.
Deu, e aí?
Devolve o copo.
Você não sentiu nada novo?
O quê?!
Ele, fechando a braguilha.
Assim… A entrada. A saída. A união.
Não senti nada, senti apenas um alívio por ter mijado, eu tava assim desde que a gente saiu do…
Você não entende nada, né?!
Ela, perplexa.
Ele bate em seu corpo, começa a lavar as mãos.
Ela entanto permanece inerte. Repete:
Você não entende?
Ela, de costas, fala triste.

[felipe.n.]

Add comment Fevereiro 28, 2008

mineirinho revisited

Quando o Governador Valadares se deu conta de que aquele Belo Horizonte não condizia com sua Fama, ele rapidamente ligou pro seu assessor:

- Conselheiro Lafaiete, acabei de chegar de viagem e não fiz o que se pode chamar de um Pouso Alegre. Além do mais, já fiquei sabendo que os Poços de Caldas estão quase secos. Ocê, sua aberração de Varginha, Unaí minhas coisas e venha já pro Chalé de Timóteo.

- Mas patrão, eu não posso deixar o Juiz de Fora. Pela Contagem do magistrado, as nossas Minas Gerais só estão dando Ouro Preto. Além disso, o que eu faço com Rita e Mariana?

- Ah, mande aquelas Carrancas Paracatu!

Desligou.

Preparou uma xícara de Araxá de camomila com pão de queijo. Foi assistir a goleada do Benfica sobre o Ipatinga.

Add comment Fevereiro 26, 2008

Banho Dourado.

Eu devia ter uns 15 anos na época em que o Jô Soares Onze e Meia ainda respeitava o horário e todos iam para a cama com ele. Exatamente por esperá-lo que conheci o Banho Dourado.

Um michê que abusava de senhoras desquitadas e viúvas, tinha entre suas clientes uma mais do que especial. Ela não exigia ereção, ejaculação ou exibicionismos. Dispensava qualquer resquício gosmento de sêmen. O negócio da vózinha era derreter-se em banho-maria com o esguicho frontal do rapaz. Dizia ela: “Mija no peito”.

Durante anos esse tipo tornou-se pária. Via-se um deles e a pergunta padrão era: mija no peito? Dificilmente eles entendiam a piada. Michês gaúchos, assim como a Madonna, costumam mijar nos próprios pés para evitar frieiras.

Minha avó, que nada tem a ver com michês ou pé-de-atleta, me ensinou que mijar no peito era uma boa saída para os momentos de ardência. Mas a ciência tentou desmistificá-la. A minha avó, não a ardência.

Ao ser atacado por um califário de aguás vivas, me vi em situação ímpar: ou mijava peito ou creditava as dores de uma queimadura de sei-lá-que-grau na conta da ciência.

 Fui até o banheiro mais próximo e, com o peito em chamas, estimulei-me a ponto de ficar ereto. Tendia a uma ejaculação, mas pus a próstata a trabalhar ao meu favor. Reclinei meu tronco ardido sobre a latrina. dava pra sentir o cheiro podre da merda que arrogantemente me encarava e insistia em não afundar naquela água cristalina. Ficava ali, com mais da metade do seu tamanho para fora.

Mijei no peito. Contrariei a ciência. Descreditei à mística cartesiana o alívio imediato. Desde então passei a dar mais ouvidos à crendice popular e a velhinhas que dizem: “Mija no peito”.

Add comment Fevereiro 26, 2008

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